Cursos via Web

Jaime Villate

Publicado no Jornal Universitário do Porto, Março 2002.

O rápido desenvolvimento da World Wide Web (ou, em forma mais breve, a web) nos últimos anos, disponibilizou o acesso fácil a informação multimedia, em lugares diversos e distantes. As vantagens do uso da web no ensino são muitas. No entanto, antes de começarmos a criar cursos via web, convém reflectir sobre o papel que deverão ter esses cursos dentro do ensino tradicional e qual será a forma como deverão ser desenvolvidos os cursos.

A web, que era inicialmente uma rede mundial dedicada à investigação, está a ser explorada actualmente também para fins comerciais, criando novas expectativas. O sector do marketing e da publicidade habituo-nos a sermos bombardeados com muita informação visual e sensitiva num curto intervalo; dentro de um ambiente académico, esse espírito publicitário não faz muito sentido e pode levar a dar um excessivo ênfase à forma de apresentação, descuidando os factores mais importante de conteúdo e acessibilidade.

Antes de abordar a criação de cursos ou material de apoio ao ensino via web, convém esclarecer o objectivo, e a forma como deverá ser conseguido. Diferentes sectores interessados na criação de cursos via web têm interesses variados; vamos questionar alguns possíveis objectivos, na perspectiva de uma universidade pública.

Oportunidade de negócio?

Hoje em dia fala-se muito do e-learning, termo este usado pelas empresas que vem um grande potencial económico na venda de cursos via web. Já muito antes do aparecimento da Internet existiam os cursos por correspondência que prometem coisas como torne-se um artista profissional sem sair de casa; independentemente de qualquer consideração sobre as circunstâncias em que são adequados esses cursos, julgo que a tarefa de uma instituição pública de ensino deverá ser a disseminação do conhecimento entre a comunidade, sem tornar essa actividade num negócio.

Como docente universitário, vejo as novas tecnologias como uma ajuda que facilita a minha tarefa de ensino. As notas de apoio a uma disciplina, que antigamente escrevia à mão e precisavam de ser reescritas cada vez que era necessária alguma actualização, hoje em dia posso actualizá-las mais facilmente na sua forma electrónica. Para os exames posso adaptar e reutilizar material de anos anteriores, em forma fácil graças às novas tecnologias. Não vejo assim nenhuma necessidade de comercializar um produto que já foi produzido para cumprir a minha função docente. E para além de achar questionável a comercialização de um curso produzido por uma universidade pública, com tanta informação livre disponível na web, duvido muito que fosse obtido algum lucro significativo.

Substituição das aulas presenciais?

Um curso na Web pode ser uma boa alternativa ou complemento nos casos em que exista impossibilidade das aulas presenciais (ensino a distância). Mas existem muitos elementos do ensino tradicional que ainda não podem ser substituídos por esse meio; por exemplo, convívio com colegas e trabalho em grupo, aprender a fazer apresentações orais e outras soft skills.

Já tenho ouvido queixas do pouco sucesso do uso da web nas escolas, devido a que os alunos acabam por usar a web para outros fins diferentes dos que eram pretendidos. A web permite fornecer muita informação de uma forma fácil e rápida, mas pelo aumento na quantidade de informação e facilidade de acesso, torna-se também mais fácil divagar e acabar numa direcção que não era a pretendida. Qualquer iniciativa de ensino usando a web tem que aceitar este facto e propor atingir os seus objectivos sem proibir alguma exploração livre por parte dos alunos e sessões de comunicação com outros utilizadores.

Apoio à leccionação?

As páginas Web podem servir de apoio às aulas tradicionais. Constituem uma ferramenta útil para diversificar o ensino. Mas é preciso garantir a fácil acessibilidade por parte dos alunos e a sua fácil actualização por parte dos docentes. Como já foi discutido, a web deverá ser uma ferramenta de apoio e não uma substituição do ensino tradicional. Devemos ter em conta também que uma boa apresentação e um meio tecnologicamente avançado não implicam uma melhora na qualidade de ensino, se os conteúdos apresentados não forem de boa qualidade.

Facilitar a distribuição e actualização?

A grande vantagem do formato electrónico para edição de textos é a sua facilidade de actualização e distribuição. Mas devemos ter em conta que mesmo que um documento seja actualizado com bastante frequência é importante poder recuperar versões antigas e evitar que o documento deixe de ser utilizável devido à desaparição de um sistema computacional ou à deterioração do meio em que foi arquivado. É indispensável usar formatos standard para os documentos; os formatos proprietários correm um maior risco de se tornarem obsoletos e de difícil conversão para outros formatos. Os sistemas de gestão de versões permitem manter uma história da evolução de um documento e recuperar qualquer versão antiga.

Disseminação do conhecimento?

A maior vantagem da publicação de cursos na Web, no meu ver, é permitir alargar o público alvo da nossa actividade docente. Como funcionários do estado, temos uma responsabilidade perante a comunidade em geral. Por razões práticas é necessário limitar o número de vagas no ensino superior; mas uma vez que temos o meio de tornar público o conteúdo dos nossos cursos, porque não aproveitar esse meio para benefício de toda a comunidade? Nessa perspectiva, o material publicado na Web deverá ser feito a pensar na sua fácil acessibilidade por parte de alunos de vários níveis e comunidades diferentes, pais dos alunos, deficientes visuais e auditivos, reclusos, etc.

Ferramentas para criação de cursos via web

Existem no mercado vários pacotes proprietários que ajudam os docentes na publicação e gestão de um curso na web. Estes pacotes normalmente são uma selecção de outros programas que podem ser obtidos por outras vias (interfaces web de correio, gestão de foros de discussão, chat, etc), que são vendidos num pacote único a preço elevado e com demasiadas restrições no seu uso. Um sistema proprietário muito difundido é o WebCT, que está a ser usado pela Universidade do Porto (http://ead.reit.up.pt:8900/gaedist/).

Há dois problemas graves, no meu ver, com essa metodologia. Primeiro, como já referi parece-me que não deveriam ser impostas quaisquer restrições ao acesso público a esses cursos, já que a Universidade é uma instituição pública que deveria estar aberta a toda a comunidade. Alguns autores tentam ultrapassar o controlo de acesso do WebCT divulgando um código de acesso público; mas inclusivamente usando o código de acesso público, o "aluno" é bombardeado com informação publicitária da WebCT.

O segundo problema é a relação de dependência que cria o uso de programas proprietários. Os alunos podem aprender a matéria leccionada nos cursos publicados com o WebCT, mas não podem tentar aprender o funcionamento do WebCT nem pensar em modificar o seu comportamento. As Universidades não deveriam limitar-se à utilização de programas como WebCT, mas também participar no seu desenvolvimento; as ferramentas e infra-estrutura desenvolvidas deveriam estar disponíveis ao público e até deveriam existir também cursos que ensinassem a forma como são desenvolvidos os programas de apoio.

Existem programas livres que estão a ser desenvolvidos para gerir cursos na web. Esses programas podem ser utilizados e modificados por outras pessoas interessadas. Um bom exemplo é o programa Edventure (http://dangermouse.brynmawr.edu/edventure/docs/). Pode não ter todas as funcionalidades actuais do WebCT, mas com algum trabalho poderia ser adaptado às necessidades específicas de uma escola. Outros exemplos a seguir são o Projecto MIT OpenCourseWare, do Massachusetts Institute of Technology, 2001 (http://web.mit.edu/ocw/), que visa dar acesso livre aos seus cursos, e o Open Knowledge Initiative (http://web.mit.edu/oki/).