Porto Cidade Tecnológica 2001

Segunda edição do evento dedicado ao Software Livre

Jaime Villate

Publicado no Jornal Universitário do Porto, Novembro 2001, página 14.

Porto Cidade Tecnológica é um evento anual organizado por um grupo de entusiastas da Informática Livre, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e da Câmara Municipal do Porto. Após uma primeira edição no ano passado, este ano os seus objectivos foram mais ambiciosos e o certame já ocupa um lugar de destaque no mundo da informática livre.

Realizou-se no dia 12 de Outubro o Porto Cidade Tecnológica 2001 (http://www.cidadetecnologica.org). Este ano o local do evento foi o mercado Ferreira Borges, na zona histórica do Porto. Trata-se da segunda edição do evento dedicado ao Software Livre, organizado pela Câmara Municipal do Porto e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

Este ano o evento consistiu numa exposição por parte de instituições e empresas que desenvolvem e trabalham com software livre, uma sessão de instalação do GNU/Linux, e uma série de palestras. No centro do mercado Ferreira Borges foi adaptada uma sala para as conferências, rodeada pelos stands dos expositores, um local para ajuda com a instalação de GNU/Linux e vários pontos de acesso livre à Internet.

Igual ao ano passado, o evento foi aberto a todo o público interessado. A pesar das dificuldades de acesso ao local, devido às obras na zona da Ribeira, o evento foi visitado por alunos e professores do ensino secundário e superior, empresários, Ministros e outras personalidades públicas, e público em geral.

Associação Nacional para o Software Livre

Entre os pontos importantes no programa do Porto Cidade Tecnológica 2001, esteve o lançamento da Associação Nacional para o Software Livre, ANSOL. O anuncio foi feito por um grupo de defensores da informática livre em Portugal, que têm estado a trabalhar nos últimos meses para garantir a participação de Portugal na recentemente criada Free Software Foundation Europe.

A associação será uma organização sem fins lucrativos, empenhada na divulgação, promoção, desenvolvimento, investigação e estudo da Informática Livre e as suas repercussões socio-políticas, culturais e tecnológicas. Já foi criado um site na Web para a associação (http://www.ansol.org), e uma primeira versão dos seus estatutos. A iniciativa tem despertado o interesse da comunidade de entusiastas do Software Livre em Portugal, que estão a discutir na lista de correio da associação a marcação da primeira Assembleia Geral, durante a qual serão eleitos os órgãos directivos.

Convidados Internacionais e Nacionais

Porto Cidade Tecnológica 2001
Mariano Gago e Nuno Cardoso adeptos do GNU/Linux.

Os vice-presidentes da Free Software Foundation, e da Free Software Foundation Europe, Bradley Kuhn e Loïc Dachary, foram os convidados especiais de fora de Portugal. Bradley Kuhn deu uma palestra intitulada Software Freedom, the GNU Generation and the GNU General Public License e Loïc Dachary falou sobre o desenvolvimento do software livre e as associações de software livre no mundo inteiro. O certame foi também uma excelente oportunidade para agrupar os membros fundadores da ANSOL com estes convidados internacionais.

Entre os convidados às conferências estiveram também os professores Pedro Guedes de Oliveira e Raul Oliveira, da FEUP e Paulo Trezentos do ISCTE (Lisboa). A exposição de software livre incluiu stands do INESC, ISEP, ISPGaya, Universidade Fernando Pessoa, Escola Superior Técnica de Viseu, Universidade do Minho, AEIOU, Cobalt e Compaq entre outros.

O software livre e o governo português

O governo português tem dado alguns passos importantes em defesa do movimento da informática livre. O apoio do presidente da Câmara do Porto, Eng. Nuno Cardoso, tem sido fundamental para conseguir concretizar a iniciativa do grupo de professores e alunos da FEUP que no ano passado propuseram a organização do evento. A Câmara Municipal do Porto tem proporcionado a infra-estrutura organizativa necessária para um evento livre da magnitude do Porto Cidade Tecnológica, e continua empenhada em torná-lo uma tradição na actividade cultural da cidade.

O Ministro da Ciência e da Tecnologia, Doutor Mariano Gago, visitou o evento e numa entrevista para a imprensa reiterou a sua opinião da grande importância que tem o uso de software não-proprietário nas administrações públicas Europeias e no sistema educativo português. O Ministro da Reforma do Estado e da Administração Pública, Dr. Alberto Martins, foi outro dos convidados especiais do programa de palestras com uma intervenção sobre "As Tecnologias na Reforma do Estado e da Administração Pública"; o senhor ministro falou dos problemas actuais da administração pública portuguesa, que com mais de 700 mil pessoas é a maior empresa do país, e salientou a importância do Porto Cidade Tecnológica "quanto a um espaço de procura, um espaço de investigação e um espaço de trabalho para a administração pública".

O ministro Alberto Martins e o Presidente da Câmara do Porto assistiram também ao lançamento da campanha "Um Computador pelo Futuro de Portugal", por parte do Professor Raul Oliveira, com objectivo de angariar equipamento informático, usado ou novo, que possa ser cedido às escolas com mais carências de equipamento informático e que a FEUP entregará com um sistema completo de software livre instalado.


Software Livre e GNU/Linux

Software Livre (em inglês Free Software), são programas de computador que podem ser distribuídos e modificados em forma livre; isto implica que qualquer programador tem acesso ao código fonte que pode usar e modificar nos seus próprios programas, sempre que mantenha a mesma liberdade nos seus programas. Mais do que uns simples programas de computador, Free Software é um movimento político e filosófico, iniciado por Richard Stallman na década de 1980, através da sua Free Software Foundation (FSF).

Richard Stallman identificou quatro liberdades básicas que deviam ser mantidas na área da programação de computadores, para garantir que continue a gozar da liberdade existente em outras ciências exactas. Estas liberdades são:

  1. A liberdade de executar o software, para qualquer uso;
  2. A liberdade de estudar o funcionamento de um programa e de adaptá-lo às nossas necessidades;
  3. A liberdade de redistribuir cópias;
  4. A liberdade de melhorar o programa e de tornar as nossas modificações públicas de modo que a comunidade inteira beneficie da melhoria.

Uma empresa não precisa eliminar nenhuma dessas liberdades dos utilizadores para poder fazer lucro - como que existe um negócio lucrativo em volta à educação, sem se ter que proibir que o conhecimento adquirido seja usado e transmitido fora da escola. A palavra Free em Free Software não implica nenhuma imposição de que o software tenha que ser gratuito. Embora o duplo sentido (gratuito/livre) de Free seja explorado em forma algo irónica para indicar que o software livre pode ser obtido gratuitamente por quem estiver disposto a obté-lo directamente (algo assim como aprender em forma autodidacta, em vez de pagar explicações, seguindo a nossa analogia com o ensino).

O software livre promove o trabalho cooperativo, dando origem a projectos da comunidade com grande qualidade técnica. Do ponto de vista político, o software livre possibilita que os países com mais problemas económicos possam também desenvolver software avançado, que no caso do software proprietário (software não-livre) é monopólio de grandes empresas multi-nacionais; estas empresas poderiam até chegar a por em causa a defesa de um país, pois quando o código fonte não está disponível, é fácil esconder programas de espionagem ou um vírus.

GNU/Linux é um sistema operativo completo ao estilo Unix, baseado em Software Livre. Do ponto de vista técnico, GNU/Linux contém tudo o que seria de esperar num sistema operativo profissional: capacidade para multi-tarefa, memória virtual, acesso à Internet, capacidades multi-utilizador (centenas de pessoas podem aceder ao mesmo computador em simultâneo, seja por rede interna ou Internet), interfaces gráficas com janelas, gestão de programas instalados. O GNU/Linux funciona completamente em modo protegido, o que o torna praticamente imune a bloqueios de sistema em que a única solução é reiniciar o computador, com a subsequente perda de informação ou mesmo danos físicos do hardware. Os sistemas GNU/Linux típicos trabalham muitos dias sem interrupção; a própria actualização de software pode ser feita sem ter que reiniciar o sistema e sem interferir com o trabalho de outros utilizadores.

Embora seja um sistema operativo de grande qualidade técnica, o que faz com que GNU/Linux seja completamente diferente a outros sistemas operativos é o seu caracter livre. O GNU/Linux tem sido desenvolvido no âmbito de um movimento universal de colaboração e partilha de informação; nesse movimento participam milhares de programadores de diferentes níveis (desde alunos de escola secundaria até programadores profissionais) que acreditam que o software é conhecimento científico que deve poder ser transmitido e usado livremente, sem restrições de patentes ou contratos de utilização.