Os vetores são muito úteis em física, e na geometria do espaço o seu
uso facilita a descrição de sólidos. A abordagem tradicional da
mecânica quântica é baseada em vetores em espaços com componentes
complexas.
3.1. Definição
Um espaço vetorial com coeficientes complexos é um conjunto de
elementos , que designaremos por kets, com duas
operações que verificam 7 axiomas. As duas operações são:
Soma. A soma de dois kets e
é igual a outro ket
.
Produto por número complexo. O produto de um ket
e um número complexo , é igual a outro ket
.
Axiomas:
Associatividade da soma:
Comutatividade da soma:
Ket nulo. Existe um ket , tal que, para todo ket :
Inverso. Para cada ket existe um ket inverso
, tal que:
Associatividade do produto:
Distributividade da soma:
Distributividade do produto:
Observe que estamos a utilizar o mesmo símbolo para a soma
vetorial entre kets e para a soma de números complexos. Deverá ficar
claro, de acordo com o contexto, qual das somas representa o operador
. Por exemplo, no lado esquerdo do axioma (VII) trata-se de
uma soma entre complexos, enquanto que no lado direito é uma soma
vetorial.
Algumas consequências desses axiomas são as seguintes:
O ket nulo é único: Se existisse outro ket nulo,
, tal que para
qualquer ket , então, em particular,
pelos axiomas (II) e (III), o lado esquerdo é igual a
, e conclui-se que .
O produto do número 0 por qualquer ket é igual ao ket
nulo:
O ket nulo multiplicado por qualquer número complexo é igual ao
próprio ket nulo:
Qualquer ket multiplicado pelo número 1 é igual ao ket original:
O ket inverso de qualquer ket é sempre único, e igual a
vezes o ket:
3.2. Produto interno
Admitiremos que no espaço dos kets, para além das duas operações que o
tornam um espaço vetorial, existe outra operação: o
produto interno entre dois kets e , que é um número
complexo , e é indicado colocando um ponto entre os kets:
Os axiomas do produto interno são os seguintes:
Não comutatividade:
Distributividade com a soma:
Produto por número complexo:
O produto de um ket por si próprio é um número real, positivo se
o ket não for nulo, ou zero no caso do ket nulo:
Apesar do produto interno não ser comutativo, a distributividade
(propriedade (II)) também é valida com o produto no lado direito:
E também observe-se que na propriedade (III) o número complexo
multiplicava o segundo ket no produto. Se estivesse a multiplicar o
primeiro ket, o seu conjugado ficava a multiplicar o produto dos kets:
A propriedade (IV) do produto interno permite-nos definir a
norma (também designada por magnitude ou módulo) de um ket,
da forma seguinte:
(3.1)
Uma propriedade importante do produto interno é desigualdade de
Cauchy-Schwarz:
(3.2)
e no caso em que os dois lados são iguais implica que um dos kets é
igual ao outro, multiplicado por um número complexo. A desigualdade de
Cauchy-Schwarz permite definir o ângulo entre dos kets (cosseno
inverso da expressão no lado esquerdo da equação (3.2),
dividido pelo lado direito). No caso em que um dos kets é igual ao
outro vezes um número complexo, os kets são paralelos, e no caso em
que o produto interno entre os kets é igual a zero, os kets são
perpendiculares:
(3.3)
Um ket pode e sempre ser "normalizado", ou seja transformado num
outro ket paralelo mas com norma igual a 1, multiplicando pelo inverso
da sua norma. Se representa o ket normalizado, paralelo a
, temos então:
(3.4)
3.3. Combinações lineares
Dados kets diferentes, , , …,
, e números complexos quaisquer, a expressão,
(3.5)
é outro ket, designado por combinação linear. Todas a possíveis
combinações lineares dos kets (com diferentes números
complexos), formam um sub-espaço do espaço vetorial; isto é, a soma
de kets nesse conjunto, e os produto de um desses ket por qualquer
complexo, é também uma combinação linear dos mesmos kets.
3.4. Independência linear
O ket nulo está incluído em qualquer combinação
linear (3.5) de kets, obtido quando todas as constantes
sejam nulas. Em alguns casos, existem outros conjuntos de
números , diferentes de zero, que fazem com que a combinação
linear (3.5) seja igual ao ket nulo. Por exemplo, com dois
kets paralelos e , a combinação linear:
será igual a se , ou se e . Nesse
caso diz-se que os kets e são linearmente
dependentes.
Um conjunto de kets , todos diferentes de , é
linearmente independente, se a equação:
(3.6)
tem uma única solução .
3.5. Bases
Uma base de um espaço vetorial de dimensão é um conjunto de
kets , linearmente independentes, que geram todo o
espaço vetorial. Qualquer ket pode então ser obtido como
combinação linear dos kets da base:
(3.7)
É sempre possível construir uma base: escolhe-se um ket qualquer,
, a seguir escolhe-se um segundo ket
que não esteja no sub-espaço
, um ket que não esteja no
sub-espaço , e assim
sucessivamente até gerar toro o espaço.
3.5.1. Bases ortonormais
Uma base ortonormal é uma base em que todos os kets
são perpendiculares entre sim e têm norma igual a 1. A condição de
ortonormalidade pode ser escrita:
(3.8)
para quaisquer índeices e , entre 1 e , que podem ser
iguais, onde é o delta de Kronecker:
(3.9)
3.5.2. Procedimento de Gram-Schmidt
Para transformar uma base numa base ortonormal
, começa-se por "normalizar" o primeiro elemento,
dividindo pela sua própria norma:
(3.10)
A seguir, calcula-se a componente de perpendicular a
, subtraindo a a sua componente paralela a
:
(3.11)
O segundo ket da base ortonormal obtém-se normalizando
(3.12)
A componente de perpendicular a e
é:
(3.13)
e o terceiro ket da base ortonormal é:
(3.14)
Procede-se de fomra semelhante até se obter o último elemento da
base, .
3.6. Componentes
Dada uma base ortonormal , qualquer ket pode
ser escrito como combinação linear da base:
(3.15)
onde os números complexos são as componentes de
nessa base, e podem ser obtidas multiplicando a
expressão (3.15) por :
(3.16)
e como tal, cada componente é igual ao produto interno de
com o ket :
(3.17)
O produto interno entre dois kets pode ser escrito em função das suas
componentes:
(3.18)
que conduz a que o produto interno é a soma do complexo conjugado das
componentes do primeiro ket, multiplicadas pelas respetivas
componentes do segundo ket:
(3.19)
A expressão (3.19), no caso particular
, conduz a relação entre a norma e as componentes de
um ket:
(3.20)
3.7. Funções lineares
Uma função no espaço dos kets associa a cada ket um
número complexo , ou seja,
(3.21)
Diz-se que a função é linear, se verificar a seguinte
propriedade, para quaisquer dos kets e , e
quaisquer dois números complexos e :
(3.22)
Definem-se a soma de dos funções e , e o produto de uma
função por um número complexo,
(3.23)
tal que e são duas novas funções definidas por:
(3.24)
Com essas definições, pode conferir-se que a soma de funções lineares
e o produto de números complexos por funções lineares verificam os 7
axiomas dos espaços vetoriais. Como tal, as funções lineares são
também um espaço vetorial.
Uma função linear atuando nos elementos de uma base ortonormal
, dá números complexos que designaremos por
:
(3.25)
Como qualquer pode ser escrito como combinação linear da
base, e usando a propriedade de linearidade de temos então:
(3.26)
e, usando a expressão (3.19), vemos que, para
qualquer ket , o efeito do operador linear é simplesmente:
(3.27)
em que o ket foi definido por:
(3.28)
3.8. Dualidade
A expressão (3.28) mostra que para cada função linear
existe um ket , cujo produto interno com qualquer outro
ket dá o mesmo resultado de aplicar a função nesse outro ket. Como
tal, existe uma correspondência um a um entre funções lineares e kets,
e a dimensão do espaço vetorial de funções lineares tem a mesma
dimensão do espaço vetorial dos kets. Diz-se que o espaço das funções
lineares é o espaço dual do espaço dos kets; designaremos
cada elemento desse espaço por bra, e usaremos a notação
para o bra . O resultado de aplicar a função
num ket denota-se da forma seguinte:
(3.29)
onde foi usado resultado (3.26). O produto
entre um bra e um ket, , é designado por
"bracket" (as duas barras verticais do bra e do ket foram contraídas
numa única barra).
Tendo em conta as expressões (3.29) e
(3.19), vemos que um bracket
pode ser interpretado como o produto interno
entre os kets e , ou como uma função linear
a atuar num ket :
(3.30)
O papeis de espaço dos kets e dos bras podem ser trocados, usando a
propriedade anticomutativa do produto interno:
(3.31)
isto é, o espaço dual do dual é o espaço original.
Os resultados obtidos nas secções anteriores podem ser escritos de
forma mais compacta usando a notação de brackets para o produto interno.
A condição de ortonormalidade da base é,
(3.32)
e as componentes (3.17) dum ket na base
ortonormal são,
(3.33)
O que mostra que o efeito da função correspondente ao bra
é extrair a componente de um ket. A expressão de um
ket como combinação linear da base é:
(3.34)
E o produto interno em função das componentes dos kets é,
(3.35)
e, como a componente nessa soma é igual a
, concluímos que a combinação linear do bra
associado ao ket (3.34), em função da
base, é:
(3.36)
O conjunto de bras é a base ortonormal do espaço
dual dos bras, associada à base no espaço dos kets.
O bracket de um ket com si próprio é igual à sua norma ao quadrado:
(3.37)
3.9. Operadores lineares
Um operador no espaço dos kets associa a cada ket
um outro ket :
(3.38)
A expressão é o produto interno entre o
ket e o ket .
O operador é linear se, para quaisquer dois kets e ,
e números complexos e ,
(3.39)
O resultado do operador atuando em cada elemento da
base é um ket que pode ser escrito como combinação
linear da própria base:
(3.40)
onde são as componentes do operador ( números
complexos). Multiplicando por cada um dos lados da
equação anterior, vemos que cada componente do operador é:
(3.41)
Usando a propriedade de linearidade do operador , o
resultado da sua aplicação a um ket é:
(3.42)
E o produto com um bra é igual a,
(3.43)
No caso em que o bra na expressão (3.43) for
correspondente ao ket , essa expressão define
, designado por valor esperado do
operador no ket :
(3.44)
3.9.1. Operador adjunto
A cada operador linear associa-se um outro operador
adjunto, denotado por , que verifica a
seguinte propriedade, para quaisquer dois kets e
:
(3.45)
Substituindo o operador na expressão
(3.43), valida para qualquer operador linear,
obtemos,
(3.46)
onde trocamos os nomes dos índices e na última
expressão. Como, de acordo com a definição (3.45), este
resultado deverá ser igual à expressão (3.43),
conclui-se que a relação entre as componentes do operador adjunto e o
operador original é:
(3.47)
3.9.2. Operadores hermíticos
Um operador hermítico é um operador que é igual ao seu operador
adjunto:
isto é, o valor esperado de um operador hermítico, em qualquer ket
, é sempre um valor real.
3.10. Representação matricial
Uma forma útil de trabalhar com kets, bras e brackets consiste em
representar as componentes de um ket por uma matriz com uma
coluna e linhas:
(3.50)
E o bra associado a um ket é a matriz de uma linha e ,
transpota da matriz do ket, com todos os seus elementos trocados pelo
respetivo conjugado complexo:
(3.51)
assim, um bracket e igual ao produto entre uma matriz linha e uma
matriz coluna, dando como resultado um número complexo:
(3.52)
Nessa representação, um operador é uma matriz de linhas e
colunas, em que cada elemento da matriz é a respectiva componente do
operador:
(3.53)
A equação (3.40) indica que cada coluna da matriz do
operador são os coeficientes do resultado do operador atuando no
respetivo elemento da base, escrito como combinação linear da
base. Por exemplo, a terceira coluna serão os coeficientes do
resultado escrito como combinação linear dos
kets da base.
A equação (3.47) implica que a matriz do
operador adjunto é a matriz transposta e conjugada da matriz do
operador original, e a equação (3.45) implica que a
expressão (3.54) também pode ser escrita
como:
(3.55)
3.11. Valores e vetores próprios
Os vetores próprios de um operador são todos os kets
(diferentes do ket nul ), que verificam a
condição:
(3.56)
onde é um número complexo, designado por valor
próprio. A definição (3.56) é equivalente a dizer
que o resultado de aplicar o operador num ket que seja um dos seus
vetores próprios, é o mesmo ket multiplicado por uma constante.
Se um ket é vetor próprio de , com
valor próprio , qualquer número complexo multiplicado por
é também vetor próprio, com o mesmo valor próprio
. Os vetores próprios formam assim um subespaço
vetorial. Em alguns casos, existem dois ou mais vetores próprios
linearmente independentes, correspondentes ao mesmo valor próprio; a
dimensão dos espaço dos vetores próprios correspondentes a um valor
próprio é o número máximo desses vetores que seja linearmente
independente.
Usando a representação matricial do operador , e do ket
, a expressão (3.56) é um sistema de
equações:
(3.57)
em que , , …, são as componentes do ket próprio
. Encontrar os valores próprios da matriz de
consiste em determinar para que valores o
esse sistema tem soluções para as variáveis , dadas as
constantes . E caso existam soluções para um número
, cada uma dessas soluções define um ket próprio
correspondente a esse valor próprio .
As equações, agrupando as variáveis no lado esquerdo são:
(3.58)
Obviamente é solução desse sistema de
equações. Para que existam outras soluções é necessário que pelo menos
uma das equações no sistema seja uma combinação das outras, ficando
pelo menos uma variável livre que pode ter qualquer valor. O
número de variáveis livres será a dimensão do espaço desses vetores
próprios. Uma condição necessária, e suficiente, para que as equações
sejam linearmente dependentes entre si, é que o determinante do
sistema de equações (3.58) seja nulo:
(3.59)
A expressão anterior conduz a um polinómio de grau para a variável
. Cada raiz desse polinómio é um possível valor
próprio. Substituindo um valor próprio no
sistema (3.58) obtém-se um sistema com variáveis
livres; um possível valor das variáveis livre dá um dos possíveis
vetores próprios.
Se o operador for hermítico, todos os seus valores
próprios serão reais, e os vetores próprios correspondentes a valores
próprios diferentes serão perpendiculares entre si (a demonstração é
feita no exercício 3.3). Os vetores próprios de um
operador hermítico, normalizados, constituem assim uma base ortonormal
do espaço vetorial.
Exercícios
3.1
Em função da base ortonormal
a representação de dois
kets é:
Calcule: (a) A sua diferença, .
(b) O seu produto interno, .
Resolução. Este problema pode ser resolvido trabalhando
diretamente com os kets, ou com a sua representação matricial. O
primeiro método é:
(a)
(b)
Como ,
e , então:
Usando matrizes a resolução é:
(a)
(b)
3.2
Num espaço de kets com base ortonormal
(dimensão 3), o operador
que roda todos os kets no plano dos
kets e , tem o seguinte efeito sobre os
elementos da base:
Escreva a representação matricial do operador e
determine os seus valores e vetores próprios.
Resolução. As três colunas da matriz são os lados direitos
das três expressões dadas, tendo em conta que o número que multiplica
ao ket é o número na linha da respetiva coluna. A
matriz do operador é:
Para determinar os valores próprios, resolve-se a equação:
que conduz a uma equação quadrática com 3 raízes diferentes:
$R_i^2(1-R_i)+1-R_i=0 (1-R_i)(R_i^2+1)=0 $
Os vetores próprios correspondentes a são as soluções do
sistema:
A primeira equação é trivial (); as segunda e terceira equação
são,
que conduzem a e . A componente pode ter qualquer
valor; um possível valor próprio, com norma igual a 1, obtém-se com
:
Os vetores próprios correspondentes a são as
soluções do sistema:
A primeira equação, , implica que . As segunda e
terceira equação são,
que são iguais (a primeira dividida por dá a segunda). Usando a
primeira equação, o quadrado da norma dos vetores próprios é:
um possível valor próprio, com norma igual a 1, obtém-se
com :
Finalmente vetores próprios correspondentes a são as soluções
do sistema:
A primeira equação implica . As segunda e terceira equação são,
que são iguais. Usando a primeira equação, o quadrado da norma dos
vetores próprios é:
e podemos escolher para que a norma seja 1, o que
conduz a:
3.3
Demonstre que os valores próprios de
um operador hermítico são todos números reais, e que dois vetores
próprios correspondentes a valores próprios diferentes são
perpendiculares entre si.
Resolução. Seja um vetor próprio do operador
hermítico . De acordo com a equação
(3.49), o valor esperado de
nesse ket,
é um número real. Mas como o produto do operador e o ket próprio é
igual ao respetivo valor próprio vezes o ket, temos que:
E, como é um número real e positivo
(norma ao quadrado), então o valor próprio
deverá ser um número real.
Para demostrar que vetores próprios correspondentes a valores próprios
diferentes são perpendiculares, consideremos dois valores próprios
diferentes, e , ambos números reais, e dois
vetores próprios e correspondentes a
esses valores próprios. Temos que,
E, usando a expressão (3.45) e o facto de que
é hermítico,
Subtraindo estas duas últimas equações, obtemos:
e como os dois valores próprios são diferentes,
é diferente de zero e, como
tal,
ou seja, os vetores próprios e
são perpendiculares.
3.4
O operador associado a um observável
tem dois valores próprios e
. Na base dos vetores próprios desse operador, os
kets e são:
(a) Calcule o produto interno entre e
.
(b) Quais serão as probabilidades de medir igual
a ou quando o estado do sistema for ?
(c) Determine o valor esperado de quando o
sistema estiver no estado .
(d) Em qual dos dois estados, ou ,
será mais provável obter o resultado quando for
medido?
(e) Se o estado do sistema for e o resultado da
medição de for 12, qual será o estado do sistema
imediatamente após essa medição?
Resolução. (a)
(b)
(c)
(d)
Como é menor que , então é mais provável no estado .
(e) O estado ficará igual a .
Outro método para resolver as primeiras 4 alíneas consiste em usar a
representação matricial. Como a base que está a ser usada são os
vetores próprios e , então as
matrizes desses vetores próprios são:
e substituindo nas expressões dadas para e
obtém-se:
(a)
(b) As componentes do ket já são conhecidas, mas
podem ser obtidas também por produtos matriciais:
E as probabilidades são:
(c) Na base dos seus vetores próprios, a matriz do operado
é diagonal, e os elementos na diagonal são os respetivos
valores próprios:
E o valor esperado de é:
(d)
E a probabilidade é:
O primeiro método é muito mais fácil neste problema, mas em outros
problemas pode ser mais conveniente usar o segundo método.