Jaime E. Villate.
Universidade do Porto, Portugal, 2025.
Uma função oscilatória é uma função do tempo , contínua, que varia entre dois valores limites, como no gráfico da figura 3.1, que pode representar o registo das vibrações num sismógrafo, ou um sinal elétrico num circuito, ou as variações de temperatura em torno de um valor médio, etc.
A função oscilatória pode ser periódica, quando a oscilação durante um intervalo (período) repete-se indefinidamente. Nesse caso, a função pode ser decomposta numa série de Fourier, que é uma soma de funções seno e cosseno. Na secção seguinte estudaremos essas oscilações elementares em que é uma função seno ou cosseno.
A oscilação periódica mais simples é quando a função oscilatória tem a forma de uma função seno:
A amplitude é o valor máximo da função; o valor mínimo é . a constante é a frequência angular, e é a fase inicial. A figura 3.2 mostra o gráfico da função. O tempo entre dois instantes sucessivos em que a função tem o seu valor máximo é o período de oscilação.
A variação do argumento da função seno durante um período é , que deverá ser igual a radianos. Como tal, a relação entre o período e a frequência angular é a seguinte:
A frequência é o número de oscilações por unidade de tempo, igual ao inverso do período:
No instante inicial , o valor da função é e assim, a fase inicial é o arco seno da relação entre o valor inicial da função e a amplitude:
Um objeto tem movimento harmónico simples quando se desloca ao longo de um eixo, por exemplo o eixo , de forma que a sua posição em função do tempo é uma função harmónica:
A velocidade instantânea, derivada da posição em ordem ao tempo, é:
E consequentemente, em qualquer instante a seguinte expressão permanece constante, igual ao quadrado da amplitude:
em particular, no instante inicial a expressão anterior permite determinar a amplitude em função da posição incial , e da velocidade incial :
e a fase inicial é o arco seno da posição inicial sobre a amplitude:
O movimento harmónico simples pode ser visualizado como a projeção de um movimento circular uniforme. O lado esquerdo da figura 3.3 mostra uma roda, de raio , que roda em torno do seu eixo com velocidade angular , constante, no sentido contrário ao movimento dos ponteiros do relógio.
Na periferia da roda há um pino P. A projeção da posição do pino no plano horizontal desloca-se entre dois pontos à distância da projeção do eixo da roda no ponto O. Num eixo com origem no ponto O e na direção do movimento da projeção de P, a posição da projeção de P é dada pela função , que verifica a equação (3.5) do movimento harmónico simples.
Se colocarmos o eixo passando pelo centro da roda (lado direito da figura 3.3), o vetor , desde a origem O até o ponto P, tem módulo igual a e componentes:
onde o ângulo é o ângulo que o vetor faz com o semieixo negativo. A velocidade angular do ponto P é , constante, igual à derivada do ângulo em ordem ao tempo. Como tal, é a primitiva de que em tem o valor inicial :
e a componente do vetor é a expressão (3.5) do movimento harmónico simples.
Se em vez do ângulo usarmos o ângulo que o vetor faz com o semieixo positivo, a expressão do vetor será,
e o movimento harmónico no eixo dos que é a componente desse vetor é igual a:
Como tal, o movimento harmónico pode ser representado por uma função seno ou cosseno, com fases iniciais diferentes. Também é possível fazer com que a fase inicial seja nula, mudando a origem da variável . No caso da equação (3.5), se for escolhido como o instante em que é igual a zero e está a aumentar, então ; e no caso da equação (3.13), se for o instante em que tem o seu valor máximo, .
Consideremos uma partícula que se desloca no plano de forma que as duas componentes e da posição são ambas funções harmónicas. Começaremos por considerar ambas funções com a mesma frequência angular , mas com amplitudes e diferentes. O tempo pode ser contado a partir do instante em que tem o seu valor máximo, e nesse instante admitimos que não tem o seu valor máximo. Assim, as coordenadas da posição da partícula em função do tempo são:
Vejamos como será a trajetória da partícula para alguns valores do desfasamento entre os dois movimentos harmónicos.
1. Quando os dois movimentos estão em fase, , a relação entre as componentes e é constante e igual à relação entre as amplitudes:
que é a equação de uma reta que passa pela origem, com declive positivo . Mas como varia entre e , a trajetória é um segmento de reta entre os pontos e .
2. Quando o desfasamento é , a componente é:
e obtemos a seguinte relação:
que é a equação de uma elipse. A trajetória da partícula é uma elipse, com centro na origem e semieixos de comprimentos e , nas direções e .
Em , tem o seu valor máximo e é igual a zero; a partícula encontra-se no semieixo positivo . Um instante mais tarde tanto como diminuem. Como tal, a partícula passa para o quarto quadrante. Isso indica que a elipse é percorrida no sentido dos ponteiros do relógio.
3. Se , as coordenadas cartesianas da posição são dadas pela equação (3.14). Usaremos o método dos vetores de rotação para determinar a trajetória. A figura 3.4 mostra os vetores de rotação dos dois movimentos, com módulos e , em oito instantes , ,…, .
No instante inicial, , o vetor correspondente à coordenada encontra-se na sua posição máxima, enquanto que o vetor correspondente à coordenada já rodou um ângulo em relação à sua posição máxima; a partícula encontra-se no ponto , de coordenadas e .
Em , passa pelo ponto com coordenadas e , no semieixo positivo . Assim sucessivamente, até chegarmos ao instante em que a partícula atravessa o semieixo positivo ; nesse instante, e a coordenada onde a partícula cruza o semieixo positivo é . Em , a coordenada da partícula tem o seu valor máximo . Comparando as coordenadas dos pontos e , temos que . Como tal, o desfasamento entre os dois movimentos harmónicos pode ser determinado a partir da relação entre e :
4. Se , obtém-se uma trajetória elíptica semelhante à da figura 3.4, mas inclinada de forma que o eixo maior tem declive negativo, e a elipse é percorrida no sentido oposto ao movimento dos ponteiros do relógio. Em função da coordenada , onde a partícula atravessa o semieixo positivo, e o valor máximo da coordenada , o ângulo de desfasamento é igual a:
Quando as frequências dos dois movimentos harmónicos são diferentes, mas a relação entre elas é um número racional, a trajetória da partícula é uma curva conhecida como figura de Lissajous. O exercício 3.3 mostra uma dessa figuras, no caso em que uma das frequências é o dobro da outra.
A expressão da aceleração correspondente ao movimento harmónico simples (3.5) é a derivada da expressão (3.6) da velocidade, que conduz a:
Esta é a mesma função da posição, multiplicada por uma constante:
Como a aceleração é a segunda derivada da posição em ordem ao tempo, esta expressão da aceleração implica a seguinte equação diferencial:
A solução geral desta equação diferencial é a função (3.5), com duas constante e que dependem das condições iniciais, de acordo com as equações (3.8) e (3.9).
Usando a segunda lei de Newton, para produzir a aceleração (3.21) a força resultante sobre o objeto deverá ser:
onde é a massa do objeto. Este tipo de força é conhecida como força restauradora. A posição corresponde a um ponto de equilíbrio estável. Como a força resultante é nula nesse ponto, o objeto pode permanecer em repouso nessa posição. Se o objeto se afastar desse ponto, no sentido positivo de , a força no sentido oposto faz com que regresse à posição . E se o objeto se afastar no sentido negativo de , a força será então no sentido positivo fazendo novamente com que o objeto regresse à posição de equilíbrio.
Em qualquer sistema em que a força resultante for da forma (3.23), o movimento será harmónico simples, com frequência angular . E qualquer sistema em que existe uma função do tempo que verifica uma equação da forma da equação diferencial (3.22), essa função será uma oscilação harmónica simples com frequência angular .
Uma mola elástica, quando tem o seu comprimento normal, não exerce nenhuma força. Quando a mola é comprimida ou distendida, esta exerce uma força diretamente proporcional à distância que foi comprimida ou distendida, e essa força é no sentido que faz a mola recuperar o seu comprimento normal.
A figura 3.5 mostra uma mola que foi pendurada de um suporte fixo. Se definirmos o eixo na direção vertical, no sentido para cima, e com origem na posição em que o extremo livre da mola está na posição em que a mola tem o seu comprimento normal, a força exercida pela mola é na direção do eixo e com valor:
onde é a posição do extremo livre da mola, e é a constante elástica da mola.
A seguir, penduramos um pequeno cilindro de massa do extremo livre da mola. Sobre o cilindro atuam duas forcas, o seu peso , no sentido negativo do eixo (para baixo) e a força exercida pela mola:
A posição de equilíbrio, em que o cilindro pode permanecer em repouso, corresponde ao valor que faz com que a força (3.25) seja nula:
O sinal negativo indica que a mola está esticada e o seu extremo desceu da posição em que a mola tem o seu comprimento normal. Para que o ponto de equilíbrio esteja na origem da coordenada de posição, introduzimos uma variável , medida também na vertical e para cima, definida por:
e com essa substituição de variável, a força resultante (3.25) fica igual a:
Esta força tem a forma geral da força restauradora (3.23), em que a frequência angular é:
Se o cilindro for deslocado da sua posição de equilíbrio, , começará a oscilar com movimento harmónico simples:
Um pêndulo simples é um pequeno objeto de massa , pendurado de um fio de comprimento , que pode oscilar num plano vertical (figura 3.6).
Desprezando a resistência do ar e a massa do fio, as duas forças que atuam sobre o objeto de massa são o seu peso e a tensão no fio. O lado direito da figura 3.6 mostra essas duas forças e a direção tangente à trajetória, que é circular e de raio . A única força na direção tangencial é a componente do peso nessa direção, , em que é o ângulo que o fio do pêndulo faz com a vertical.
No movimento circular, o módulo da velocidade é igual ao raio, , vezes a velocidade angular , que é a derivada do ângulo em ordem ao tempo:
A aceleração tangencial é igual à derivada do módulo da velocidade em ordem ao tempo:
E a segunda lei de Newton implica que a aceleração tangencial também deverá ser igual à força tangencial dividida pela massa:
onde o sinal negativo é porque se for positivo, também será positivo e a componente tangencial do peso faz diminuir (ver figura 3.6); e se for negativo, também será negativo e a componente tangencial do peso faz aumentar .
Igualando as duas expressões (3.32) e (3.33), obtemos a equação diferencial do pêndulo:
Se o ângulo , em radianos, for suficientemente pequeno, será aproximadamente igual a ; por exemplo, a diferença entre e é de 0.5% se , de 2% se , e de 4.5% se . Com essa aproximação, a equação (3.34) pode ser escrita:
que é a equação diferencial (3.22) de um oscilador harmónico simples com frequência angular:
A solução para o ângulo em função do tempo é então a expressão do oscilador harmónico simples:
O período do pêndulo simples é:
Como o valor da aceleração da gravidade é diferente em diferentes locais, usaremos aqui o seu valor padrão, com 4 algarismos significativos:
que é uma boa aproximação ao valor real de em latitudes próximas de .
3.1. Um ponto luminoso no ecrã de um osciloscópio oscila na vertical, com movimento harmónico simples de frequência 1.5 Hz. O comprimento do segmento vertical que o ponto descreve é 10 cm. Determine: (a) a sua frequência angular, (b) o seu período e (c) a sua velocidade máxima.
Resolução. (a) A frequência angular é igual a vezes a frequência:
(b) O período é o inverso da frequência:
(c) A amplitude do movimento é 5 cm, e a velocidade máxima é igual à amplitude vezes a frequência angular:
3.2. Quando um cilindro de 50 g é pendurado duma mola elástica, tal como na figura 3.5, a mola alonga-se 16 cm. (a) Determine a constante elástica da mola. (b) Calcule o período de oscilação do sistema. (c) Se o cilindro é deslocado 5 cm por baixo da posição de equilíbrio e a seguir deixa-se oscilar livremente, determine a velocidade máxima no seu movimento oscilatório.
Resolução. (a) Na posição de equilíbrio, o peso do cilindro, N, é igual à força elástica da mola, , onde m é o alongamento da mola. Como tal, a constante elástica é:
(b) O período de oscilação é:
(c) A expressão da posição em função do tempo, em unidades SI, é:
e a expressão da velocidade é a derivada em ordem a :
a velocidade máxima é 15.3 cm/s.
3.3. Trace a figura de Lissajous correspondente aos movimentos harmónicos:
Resolução. Os períodos dos dois movimentos harmónicos são:
O período da trajetória é então 0.4 s. A seguinte tabela mostra os valores calculados de e para entre 0 e , com intervalos de :
Com essas coordenadas e , e tendo em conta que os valores mínimos de e devem ser e os valores máximos 10, obtém-se o seguinte gráfico:
3.4. Uma partícula move-se de tal forma que as suas coordenadas como funções do tempo são dadas por e . (a) Represente graficamente a trajetória da partícula. (b) Que força é necessária para produzir este movimento? (c) Calcule os valores da velocidade e da aceleração como funções do tempo.
Resolução. (a) A trajetória da partícula é o gráfico de em função de . Substituindo na expressão de obtemos:
O gráfico seguinte mostra essa trajetória, entre e , onde .
(b) As componentes da velocidade, derivadas das coordenadas e em ordem ao tempo, são:
e as componentes da aceleração, derivadas das componentes da velocidade em ordem ao tempo, são:
A força tem unicamente componente , igual à massa vezes a componente da aceleração. A expressão vetorial da força é então:
(c) O valor da velocidade é a raiz quadrada da soma dos quadrados das componentes da velocidade. Usando as expressões obtidas na alínea anterior,
Como a aceleração tem apenas componente , o seu valor é igual à componente encontrada na alínea anterior:
3.5. Um pêndulo simples com 30 cm de comprimento é afastado 5 cm da sua posição vertical, deixando que comece a oscilar livremente. Determine: (a) O período de oscilação. (b) A expressão do ângulo que o pêndulo faz com a vertical, em função do tempo. (c) A expressão da velocidade angular do pêndulo em função do tempo.
Resolução. (a) Usando a expressão (3.38), o período é:
(b) O ângulo que o pêndulo foi afastado da vertical foi:
que é aproximadamente . A frequência angular é,
em rad/s se o tempo estiver em segundos. Como o pêndulo parte do repouso, a expressão do ângulo com a vertical é (unidades SI):
(c) A velocidade angular é:
3.6. Uma plataforma de 4000 kg vai ser usada para determinar o peso
de camiões. A plataforma será colocada sobre três molas idênticas
de constante elástica . Admita que o peso do camião
distribui-se por igual nas três molas. (a) Determine o
valor máximo que poderá ter , para que a frequência de
oscilação da plataforma, quando não houver nenhum camião por cima,
não ultrapasse 3 oscilações por segundo. (b) Se as molas
tiverem a constante elástica calculada na alínea anterior,
determine a frequência de oscilação da plataforma, quando sobre
ela estiver um camião de 12000 kg. (c) Que distância desce
a plataforma quando o camião entra nela?
Resolução. (a) Cada mola é um oscilador harmónico com massa igual à massa total (4000 kg) dividida por 3. Substituindo os valores da frequência e massa na expressão da frequência do oscilador harmónico obtemos:
(b) a frequência é:
(c) Sem o camião a distância que cada mola desce, devido ao peso da plataforma é dada pela lei de Hooke:
Quando o camião estiver sobre a plataforma, o alongamento de cada mola é:
A distância que a plataforma desce é a diferença desses dois alongamentos, igual a 8.28 cm.
3.7. Um cilindro com base circular de área , altura e massa
flutua num líquido com densidade , ficando com uma parte
de altura fora do líquido, como mostra a figura. (a)
Determine o valor de quando o cilindro estiver em
equilíbrio. (b) Se o cilindro for empurrado ligeiramente para
baixo, diminuindo a altura fora do líquido, mostre que começará
a oscilar em torno da posição de equilíbrio e determine o período de
oscilação (ignore a resistência do líquido ao movimento e as
correntes que possam ser criadas dentro do líquido).
Resolução. (a) No cilindro atuam duas forças verticais: o peso , para baixo, e a impulsão , para cima. Se o eixo for vertical e para cima, a força resultante é na direção e com valor:
Pelo princípio de Arquimedes, a impulsão é igual ao peso do volume de fluído deslocado. E esse peso é vezes a massa de fluído deslocado, que é o volume da parte submersa do cilindro, , vezes a densidade do fluído. Assim, a força resultante em função de é:
A posição de equilíbrio do cilindro será:
A massa do cilindro é igual ao produto da sua densidade , e do seu volume, . Como tal, a posição de equilíbrio pode ser escrita como:
esta resposta é válida unicamente se o cilindro for menos denso do que o fluido (). Se o cilindro fosse mais denso do que o fluido, a impulsão não seria suficiente para equilibrar o peso, e em vez de ficar em equilíbrio na superfície, o cilindro descia até o fundo do fluido.
(b) Introduzindo a mudança de variável:
a força resultante em função de é:
que tem a forma da força restauradora (3.23), com frequência angular:
A posição tem então a forma da expressão (3.5):
A altura do cilindro fora do líquido é:
que corresponde a uma oscilação com frequência angular . O período de oscilação é:
3.8. Determine o comprimento que deverá ter um pêndulo simples para que o seu período seja de 1 segundo.
3.9. Quando um homem com 80 kg sobe para uma tábua horizontal apoiada
em dois suportes, a tábua deforma-se, descendo 2.5 cm na posição
onde está o homem. Se o homem dobra ligeiramente os joelhos e volta
a esticá-los, a tábua começa a oscilar. Determine a frequência de
oscilação da tábua, admitindo que a massa da tábua é desprezável
comparada com a massa do homem.
3.8. 24.8 cm.
3.9. 3.15 Hz.