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Software livre

Jaime E. Villate. Universidade do Porto, Portugal

O meu primeiro encontro com o software livre foi por volta de 1986 enquanto era estudante de pós graduação; utilizei LaTeX para escrever relatórios e a minha tese de doutoramento. Nessa época usávamos computadores VAX na universidade e trabalhávamos em terminais alfanuméricos (VT100). Para traçar gráficos e diagramas para a minha tese, descobri a linguagem de programação PostScript; costumava criar ficheiros PostScript usando um editor de texto e logo enviava-os para uma impressora PostScript no centro de informática. Depois de levantar a listagem da impressora, podia finalmente ver o resultado e regressar ao terminal para modificar o ficheiro de texto. Era frequente perder horas com um único gráfico, por causa de erros de sintaxe e de semántica no ficheiro PostScript. Para acelerar o processo, decidi escrever algumas rotinas em PostScript que depois reutilizava trocando apenas os parámetros de entrada; conseguia assim reduzir a ocorrência de erros.

Quando comecei um pós doutoramento em Portugal, em 1990, para além dos computadores VAX o nosso grupo tinha também computadores PC com sistema operativo Windows. Um colega, Helmut Wolters, mostrou-me vários programas livres que podiamos descarregar e utilizar em vez dos programas incluídos no Windows. Os dois programas que mais me interessaram foram Emacs, um editor de texto, e Ghostscript, que me permitia ver o resultado dos meus programas PostScript no ecrã ou até imprimi-los na minha própria impressora dot-matrix.

Em 1994, quando já era docente da Universidade do Porto, fiz a minha primeira instalação de Linux; comecei com a distribuição Slackware mas mais tarde mudei para Debian que era desenvolvida por uma comunidade de programadores voluntários. O Linux permitia-me utilizar os programas de software livre que já estava a utilizar sem precisar de usar mais o sistema operativo Windows.

Reino Linux

Em 1998 criamos um grupo de utilizadores de Linux na Faculdade de Engenharia (FEUP). Entre os membros do grupo, Raul Oliveira já tinha instalado uma rede local de computadores com sistema Linux, que usava para lecionar redes de computadores aos seus alunos; ele designou essa sala de Reino Linux. Decidimos adotar o mesmo nome para o nosso grupo. A nossa primeira atividade importante foi organizar uma sessão de instalação de Linux; convidamos professores e estudantes a trazer um computar onde algum de nós instalava Linux enquanto explicava o procedimento e dava uma introdução ao Linux. Até oferecíamos CDs com distribuições de Linux. O evento teve grande sucesso e chegamos a repeti-lo mais tarde. Também organizamos pique niques para reunir com outros entusiastas do Linux.

festa de instalação de Linux

Primeira festa de instalação de Linux; sentados: Avelino da Silva e Eduardo Espinheira; a segurar um PC: Joaquim Mendes e José Alexandre.

Pique nique do Reino Linux

Pique nique; Nuno Faria, sentado à frente e Cláudio Gomes ao fundo.


Porto Cidade Linux, Cidade Tecnológica

Em 2000 Raul Oliveira conseguiu apoio do presidente da Câmara Municipal do Porto, Nuno Cardoso, para tornar a nossa festa de instalação do Linux num evento para toda a cidade. O presidente da câmara municipal mandou instalar uma tenda em frente da câmara municipal para o evento, designado de Porto Cidade Linux, Cidade Tecnológica, no 14 de julho. Tivemos um convidado especial de Espanha, Jesús González Barahona.

O grande sucesso dessa sessão fez com que o presidente da câmara municipal resolvesse repeti-lo todos os anos, passando a ser um evento de divulgação do software livre. A edição de 2001 foi organizada por uma comissão mais formal com participação de membros da câmara municipal e Raul Oliveira e eu como representantes da FEUP; como já não era uma sessão de instalação de Linux mas um evento de divulgação do software livre, passou a chamar-se Porto Cidade Tecnológica. Decorreu durante o 12 de outubro num local emblemático da cidade, o Mercado Ferreira Borges. Convidamos políticos portugueses, a Free Software Foundation, representada pelo seu vice-presidente Bradley Khun e a associação francesa de software livre, APRIL, representada por Loïc Dachary.

Porto Cidade Linux 2000

Porto Cidade Linux 2000.

Porto Cidade Tecnológica 2001

Porto Cidade Tecnológica 2001 com Raul Oliveira (FEUP), Mariano Gago (ministro de ciência e tecnologia), Nuno Cardoso (presidente da câmara municipal do Porto), Jaime Villate (FEUP) e Bradley Khun (Free Software Foundation).


Em 2002 o evento (Cidade Tecnológica 2002) decorreu em contínuo durante dois dias, entre 29 e 30 de novembro, com bancadas para expositores e espaço para demonstrações em uma das maiores instalações desportivas da cidade (pavilhão Rosa Mota) e palestras na biblioteca pública Almeida Garrett. Para a sua organização foi assinado um protocolo entre a Câmara Municipal do Porto, a FEUP e a ANSOL. Em 2003 houve mudança do presidente da câmara municipal e o evento nunca mais foi realizado.

Associação Nacional para o Software Livre

Maxima logo

Em 1999 entrei em contacto com um grupo espanhol de utilizadores de Linux, Hispalinux. Costumavam organizar um congresso anual com centenas de participantes e apresentações muito interessantes. Durante esses congressos conheci alguns membros do grupo de desenvolvimento de Debian e ingressei nesse grupo. Através da lista de correio de Debian conheci vários portugueses interessados no Software Livre. Com alguns deles participamos no Encontro Mundial de Software Livre celebrado anualmente em Bordéus, França, e estabelecemos contacto com a associação francesa de software livre, APRIL.

Em 2001 esse grupo de portugueses interessados no software livre decidiu criar uma associação de software livre, seguindo os exemplos de APRIL e Free Software Foundation. A associação recebeu o nome de ANSOL (Associação Nacional para o Software Livre). O anúncio da nova associação foi feito durante o Porto Cidade Tecnológica 2001. A seguir a esse evento, tivemos a primeira reunião da associação na minha casa com participação de: João Neves, Rui Miguel Seabra, Rúben Mendes, Rui Leite e Hugo Nogueira, e os dois convidados estrangeiros da Porto Cidade Tecnológica, Bradley Kuhn (Free Software Foundation) e Loïc Dachary (APRIL). Eu fui o primeiro presidente de ANSOL, entre 2002 e 2004.

Desenho Web

Quando em 1994 descobri a criação da World Wide Web no CERN, comecei logo a criar as minhas próprias páginas Web. No início de 1997 criei um sítio Web para o Departamento de Engenharia Química. A primeira versão desse sítio pode ainda ser consultada no Arquivo da Web portuguesa.

Programei alguns scripts CGI para permitir que os docentes do departamento pudessem atualizar as suas próprias páginas, usando um sistema semelhante do que hoje em dia é um Wiki. Em 2001 abandonei o departamento de Engenharia Química, passando para a comissão instaladora do departamento de Engenharia Física (DEF). Entre 2001 e 2010 melhorei esse sistema wiki usando-o na criação dum sítio Web para o DEF.

Moodle

Em 2001 escrevi um artigo argumentado em favor do uso de software livre para o ensino via Web (Villate, 2002b) e fiz um levantamento de vários sistemas livres de gestão da aprendizagem (Learning Management Systems). Entre esses sistemas optei por Moodle e fiz a sua primeira tradução para o português. Durante vários anos estive encarregue de atualizar essa tradução assim como gerir a secção para utilizadores portugueses no sítio Web do Moodle.

Em 2005 a Universidade do Porto criou o prémio de excelência em e-learning que reconheceria cada ano a algum professor que se destacasse por boas práticas de uso de e-learning no ensino na universidade. Os candidatos apresentaram a suas candidaturas durante um workshop aberto ao público; fui o único candidato a usar um sistema livre de e-learning (Villate, 2005f) e fui galardoado com o prémio, ex-aequo com outra disciplina da Faculdade de Ciências da Nutrição e da Alimentação (Jornal Universitário do Porto — JUP, 2006).

Já participei em vários projetos relacionados com Moddle e orientei uma tese de mestrado (Dutra, 2006) e uma tese de doutoramento (Marques, 2015) nessa área.

Maxima

Maxima logo

Maxima é uma versão livre de Macsyma (Project MAC SYMbolic MAthematics program), um dos sistemas de álgebra computacional (CAS) mais antigos, criado pelo projeto MAC do MIT (MIT's Project on Mathematics and Computation) no fim da década de 1960. Foi programado originalmente para computadores PDP. Por volta de 1982 começou a ser distribuída uma versão para computadores VAX, designada de Vaxima. William Schelter, professor de matemática na Universidade de Texas em Austin, continuou o desenvolvimento dessa versão enquanto a versão original Macsyma passou a ser propriedade do Department of Energy dos Estados Unidos (DOE). Em 1998 William Schelter recebeu autorização formal do DOE para distribuir a sua versão como software livre, sob o nome Maxima.

Após a morte do professor Schelter em 2001, formou-se um grupo de voluntários para continuar o desenvolvimento e distribuição de Maxima. Eu ingressei nesse grupo em 2006.

Sou autor de novas versões dos programas para traçado de gráficos, um módulo de análise gráfica de sistemas dinâmicos, funções para resolução numérica de sistemas de equações diferenciais e um módulo de análise combinatória. Também mantenho a interface gráfica Xmaxima e o sítio Web do projeto.