O produto entre matrizes não é comutativo. A ordem em que forem
multiplicadas duas matrizes pode dar resultados diferentes. Como tal,
a ordem em que forem aplicados dos operadores também conduz, em geral,
a resultados diferentes. Define-se o comutador de dois operadores
e , igual ao operador:
(4.1)
a forma como o comutador atua num ket é,
(4.2)
Essa definição conduz às seguintes propriedades, análogas às
propriedades dos parênteses de Poisson:
Anticomutatividade:
Linearidade:
Regra da cadeia:
Identidade de Jacobi:
O operador nulo, , é o operador que atuando em qualquer ket
produz o ket nulo. A anticomutatividade implica que o comutador de
qualquer operador com si próprio é nulo:
.
A semelhança das propriedades do comutador entre dois operadores com
as propriedades dos parênteses de Poisson, será aproveitada para
construir a mecânica quântica a partir da mecânica clássica, como
veremos numa próxima secção.
Se o comutador entre dois operadores for nulo, os operadores comutam,
isto é, a ordem em que sejam aplicados os dois operadores é
indiferente.
Quando dois operadores e comutam, têm os
mesmos valores e vetores próprios.
ou seja, podemos trocar a ordem de dois operadore, se adicionarmos
também o comutador entre eles.
4.2. Operadores unitários
Diz-se que um operador é unitário, se quando multiplicado pelo seu
operador adjunto o resultado for o operador identidade:
(4.4)
isto é, o operador adjunto é o operador inverso de
. Note-se que o adjunto do operador adjunto é o operador inicial,
e a ordem do produto na equação anterior é indiferente.
A propriedade importante dos operadores unitários é que atuando sobre
dois kets quaisquer não alteram o seu produto interno. Para o
demonstrar, sejam e os kets obtidos após
aplicar o operador nos kets e :
(4.5)
A segunda expressão implica , e
o produto interno entre os kets transformados é:
(4.6)
que é o mesmo produto interno antes dos kets serem transformados. Em
particular, como a norma de um ket é a raiz quadrada do produto
interno do ket com si próprio, as normas dos kets também não são
alteradas pela ação do operador. Como tal, um operador unitário
transforma todos os kets sem alterar os ângulo entre eles nem as suas
normas; a estrutura do espaço vetorial continua igual, tal como uma
rotação no espaço euclidiano.
A matriz que representa um operador unitário é uma matriz unitária;
cada coluna dessa matriz são as componentes do ket obtido após aplicar
o operador em cada um dos elementos da base ,
e as linhas da matriz de (matriz conjugado
transposto) são as componentes dos respectivos bras. Como o produto
interno não é alterado após a transformação, o produto da linha da
matriz de com a coluna da matriz de é
igual a , que é 0, se for diferente de , ou
1, se .
4.3. Postulados da mecânica quântica
A mecânica quântica é construída a partir dos seguintes
postulados. Há 100 anos, Max Born e outros físicos da época mostraram
que a teoria obtida partindo desses postulados explica perfeitamente
os fenómenos conhecidos na época, que não podiam ser explicados na
mecânica clássica. Os postulados básicos continuam sendo os mesmos que
foram propostos há 100 anos, embora existam diferentes formas de serem
enunciados. Nesta secção vamos enunciar cinco primeiros postulados e
na secção seguinte enunciaremos um sexto postulado.
Em cada instante, o estado de um sistema físico é descrito por
um ket , normalizado: .
Dois estados diferentes, sem ambiguidade,
, são descritos por kets ortogonais:
Qualquer variável dinâmica que possa ser medida no sistema é
representada por um operador hermítico , designado por
observável.
Cada medição de um observável dá, aleatoriamente, algum
dos seus valores próprios . Quando o estado do sistema for
, a probabilidade de se obter será:
(4.7)
onde é o vetor próprio correspondente ao valor próprio
, normalizado.
Se a medição de um observável dá como resultado o
seu valor próprio , imediatamente após a medição o
estado do sistema passa a ser o vetor próprio .
No postulado II, se dois estados e não são
ortogonais, então (diferente de zero) e a
combinação linear é perpendicular a
. Isso mostra que, nesse caso, tem uma
componente que corresponde ao estado , e subtraindo essa
componente, obtém-se um estado diferente de .
No postulado IV, como os vetores próprios de um operador
hermítico, normalizados, são ortonormais (ver exercício
3.3), , e o estado do
sistema pode ser escrito como:
(4.8)
O quadrado da norma do estado é:
(4.9)
que é igual a 1. Isso garante que a soma das probabilidades é
igual a 1.
A cada variável dinâmica está associada um operador hermítico
, e os possíveis valores obtidos quando essa variável for
medida, são os valores próprios do operador , que são números
reais. Por exemplo, se o estado do sistema for a seguinte
combinação de estados prórios de :
os possíveis resultados da medição do observável seriam
, com probabilidade 1/2, , com probabilidade 1/3, ou ,
com probabilidade 1/6. O valor esperado da medição seria,
e se o resultado da medição for , o estado mudará ficando igual a
.
4.4. Evolução temporal do estado quântico
A mecânica quântica foi desenvolvida de forma independente por
Schrödinger e Heisenberg, usando duas abordagens
diferentes. Schrödinger encontrou uma equação que permite determinar a
função de onda de um sistema, que descreve o estado do sistema. O
método usado por Heisenberg é baseado na álgebra de matrizes. Mais tarde
ficou claro que as duas abordagens são duas formas diferentes de
estudar o mesmo problema.
4.4.1. Descrição de Schrödinger
Na descrição de Schrödinger, os operadores correspondentes a
observáveis não dependem do tempo, mas o estado do sistema sim. Dado o
estado do sistema num instante , existe um operador ,
designado por operador de evolução, que permite calcular o
estado em outro instante :
(4.10)
O quadrado da norma de é,
(4.11)
Para que a descrição probabilística continue válida em qualquer
instante, é então necessário que:
(4.12)
para qualquer valor de . Isto é, o operador de evolução tem
de ser unitário.
O valor esperado de um observável , no instante ,
é dado pela expressão:
(4.13)
4.4.2. Descrição de Heisenberg
Na descrição de Heisenberg o estado do sistema não depende do tempo,
mas o operador associado a um observável varia com o tempo. O mesmo
valor esperado (4.13) é obtido admitindo
que e o operador em
é:
(4.14)
É claro que é igual ao operador identidade
. No limite ,
deverá ter outro termo proporcional a :
(4.15)
Como é unitário, temos,
(4.16)
onde o termo que multiplica a foi ignorado, porque
estamos a considerar que é aproximadamente zero. A
conclusão é que , ou seja, o
operador deverá ser anti-hermítico. Substituindo
por , o adjunto de
será , e a condição
implicará
. Isto é, o operador
é um observável (hermítico), e segundo a equação
(4.15) tem unidades de inverso do tempo.
A constante de Planck, , deverá aparecer na expressão do operador
de evolução , e como as unidades de são energia vezes
tempo, podemos introduzir outro operador , com unidades de
energia, tal que , onde é a constante
de Planck dividida por . A expressão (4.15)
para o operador de evolução, no limite é
então:
(4.17)
O fator de foi introduzido por conveniência, porque se não
fosse introduzido, em vários resultados mais para a frente apareciam
factores de (veja, por exemplo o exercício 2.1
sobre o modelo de Bohr). O valor da constante , no sistema
internacional de unidades e com 6 algarismos significativos, é:
(4.18)
Usando a equação (4.17), a expressão
(4.14), no limite , é,
(4.19)
onde o termo que multiplica a foi ignorado porque
aproxima-se de zero.
A derivada do operador em ordem ao tempo, é então:
(4.20)
Observe-se a semelhança desta expressão com a expressão (1.24)
no caso da mecânica clássica. Tendo também em conta
que o comutador de dois operadores tem as mesmas propriedades dos
parênteses de Poisson, a equação (4.20) usa-se
como base para o sexto postulado da mecânica quântica:
O comutador de dois observáveis e
é igual a:
(4.21)
onde e são as expressões dos observáveis na mecânica
clássica, e são os parênteses de Poisson entre elas.
Na mecânica clássica os parênteses de Poisson da posição, , e a
quantidade de movimento, , de uma partícula que se desloca em uma
dimensão, é igual a 1:
(4.22)
Como tal, o postulado VI implica que o comutador dos operadores de
posição, , e quantidade de movimento,
, de uma partícula que se desloca em uma dimensão, é:
(4.23)
Exercícios
4.1
Demonstre a regra da cadeia para comutadores.
Resolução. Usando a definição do comutador temos,
podemos subtrair e somar
sem alterar nada:
e agrupando os dois primeiros termos e os dois últimos em comutadores,
obtém-se o resultado:
4.2
As representações matriciais do estado de um sistema,
, e de um observável, , são:
(a) Mostre que a norma do estado, , é igual a 1.
(b) Determine o valor esperado de .
(c) Mostre que os dois kets.
são estados próprios do observável , com norma igual a 1, e
determine os respetivos valores próprios.
(d) Quais são os possíveis resultados da medição do observável
no sistema com estado , e qual a
probabilidade de se obter cada um desses resultados?
(e) Confira que o valor esperado calculado na alínea b é
igual à soma dos produtos dos possíveis resultados vezes as
respetivas probabilidades.
Resolução. (a) O quadrado da norma do ket
é:
e, como tal, .
(b) O valor esperado do operador é:
(c) A norma desses dois kets é igual a 1, porque a norma ao
quadrado é , que é igual a 1. Para determinar se um ket é
estado próprio de um operador, aplica-se o operador ao ket e, se o
resultado for um número vezes o ket original, então esse ket é estado
próprio e o número é o respetivo valor próprio. Aplicando o operador
ao ket obtemos,
e isto mostra que é vetor próprio com valor próprio 3. Já
para o ket temos,
o que mostra que é vetor próprio com valor próprio 2.
(d) Os possíveis resultados são os valores próprios do
operador, que como mostramos na alínea anterior são 2 e 3. A
probabilidade de obter cada um desses resultados é igual ao quadrado
do módulo do produto interno entre o estado e respetivo
estado próprio normalizado. O produto interno entre o vetor próprio
correspondente a 2 e o estado do sistema é:
E a probabilidade da medição dar o valor 2 é o módulo desse número ao
quadrado:
Já no caso do estado próprio com valor próprio 3,
E a probabilidade da medição dar o valor 3 é o módulo desse número ao
quadrado:
Observe que é igual a 1, como deveria ser.
(e) A soma dos produtos dos possíveis resultados vezes as
respetivas probabilidades é:
que é o mesmo valor esperado obtido na alínea b.
4.3
Uma função de estado que na mecânica
clássica seja representada por um vetor, na mecânica quântica passa
a ser representada por três operadores hermíticos, de forma que os
possíveis valores obtidos na medição desse operador são os vetores
com componentes iguais aos possíveis valores próprios desses
operadores. No caso da posição de uma partícula, em coordenadas
cartesianas, os operadores das componentes são ,
e , e a quantidade de movimento
corresponde é representada pelos operadores ,
e . Definem-se as três
componentes do operador de momento angular, em analogia com a
mecânica clássica:
E o operador correspondente ao quadrado do módulo do momento angular
é:
(a) Encontre as expressões dos comutadores entre os três
operadores , e
.
(b) Mostre que o comutador de com
qualquer uma das componentes ,
e é zero.
Resolução. (a) De acordo como o postulado VI, os
comutadores obtêm-se multiplicando por o lado direito de
cada um dos parênteses de Poisson já calculados no exercício
1.2: